BOLETIM MÚSICA NOVA (1997-1999)

O Boletim Música Nova foi uma publicação ocasional do Núcleo Música Nova de Campinas entre os anos de 1997 e 1999. O Núcleo Música Nova formou-se em 1997 com o objetivo de trazer o Festival Música Nova de volta à cidade de Campinas. O Festival Música Nova, criado pelo compositor Gilberto Mendes, tradicionalmente acontece em Santos e São Paulo. Entre 1990 e 1995 foi estendido também a Campinas, com apoio e organização do CDMC/Unicamp. Após a não-realização do Festival em Campinas em 1996, alguns estudantes de música da Unicamp se juntaram a músicos profissionais de Campinas e professores da Unicamp, com apoio do CDMC, realizando um esforço coletivo para reviver o Festival em Campinas.

O Boletim Música Nova foi produto dessa iniciativa, e parte de uma estratégia maior de divulgação e formação de público.

O Núcleo Música Nova era composto principalmente por Ignacio de Campos, Gloria Cunha, Bruno Ruviaro, Alexandre Fenerich e Valério Fiel da Costa. Também participaram e/ou apoiaram o grupo em diversos momentos: José Augusto Mannis, Maria Lúcia Pascoal, Alexandre Pascoal Neto, Jefferson Ribeiro, Domenico Coiro, entre vários outros cujos nomes podem ter me escapado (me avise se você lembrar de alguém que deveria estar nesta lista!)

Os textos do boletim, quando não assinados, são de autoria conjunta dos membros mais ativos do grupo.

Boletim Música Nova No. 1 (Abril de 1997)
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Boletim Música Nova No. 2 (Maio de 1997)
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Boletim Música Nova No. 3 (Agosto de 1997)
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Boletim Música Nova No. 4 (Agosto de 1997)
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Boletim Música Nova No. 5 (Abril de 1998)
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verso (ponta-cabeça)

Boletim Música Nova No. 6 (Julho de 1998)
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Boletim Música Nova No. 7 (Março de 1999)
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Se preferir, você pode fazer o download de TODOS os boletins de uma vez só:
em JPG (23 MB)
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Abaixo, todos os textos dos boletins sem formatação nem imagens. Para ver os boletins originais, por favor use os links acima.

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Boletim Música Nova
Número 01

Abril / 97

HISTÓRICO

De Volta a Campinas

O FESTIVAL MÚSICA NOVA é um evento internacional que foi idealizado e organizado pelo compositor Gilberto Mendes e pela Sociedade Ars Viva de Santos e, que desde o seu início, em 1962, tem realizado mostras das mais diversas tendências da música do século XX.

A partir de 1984, o Festival estende sua programação à cidade de São Paulo. De 1990 a 1995 o Festival vem a Campinas organizado pelo Centro de Documentação de Música Contemporânea CDMC – BRASIL/UNICAMP, com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura e do SESC/Campinas.

Para a volta do Festival Música Nova aos palcos de Campinas foi criada uma equipe reunindo o CDMC, Departamento de Música da Unicamp, Cia. Livre de Música, In Sanum Ensemble e vários músicos da cidade. Este ano realizar-se-á a XXXIII edição do Festival Música Nova na segunda metade de Agosto em diversos locais de Campinas. Maiores informações nos próximos boletins.

“Música Nova” é uma publicação mensal da Equipe Organizadora do Festival Música Nova – Campinas/97.

Tiragem: 500 exemplares – Março de 1997 – n.° 1 Contatos pelos telefones: (019) 253-3435 (com Bruno), (019) 239-1966 r/29 (CDMC) ou pelo e-mail: glocunha@turing.unicamp.br.

Século XX

PRIMEIRA PARTE

Chegou o Debussy, abriu a porta e entrou no século XX deixando pra trás todas aquelas antigas formas (sonata, sinfonia, rondó,…). Aliás tinha o Satie que, quando reclamaram da falta de forma da sua música, fez os “Três Fragmentos em Forma de Pêra”. Só que o Debussy ainda fez mais: aos poucos ele se liberta das raízes da tonalidade (maior-menor), o que não significa que sua música seja atonal. Atonais mesmo eram aqueles três amigos de Viena – Schoenberg, Berg e Webern. Schoenberg, professor dos outros dois, descontente com a tonalidade e depois com a falta dela, cria um sistema de organização dos sons onde todas as doze notas tem igual importância; uma nota só se repete depois que todas as outras já foram tocadas. Esse sistema democrático foi chamado dodecafonismo (dodeca=12!). A partir daí, cada um dos três seguiu um caminho próprio. Webern, por exemplo, radicalizou. Do dodecafonismo avançou para o serialismo, onde não só as alturas, mas também dinâmicas, ritmos, etc, foram organizados da mesma forma – em série. Mas nenhum deles inovou muito no ritmo. Quem quebrou tudo mesmo foi Stravinsky. Na famosa “Sagração da Primavera” o ritmo já é o elemento mais importante, com polirritmias (poli=muitos!), bruscas mudanças de compasso, ritmos irregulares, folclóricos… Rítmica e folclore também são os fortes de Bartók, um húngaro que saiu a campo pesquisando o folclore de diversos países da Europa (oriental) e daí extraiu a matéria-prima de toda sua música. Ritmos de dança, modos, politonalidade… enfim, aqueles seis volumes didáticos para piano – “Mikrokosmos” – são, de início, uma boa amostra do que podemos encontrar em Bartók. Villa-Lobos falava quase a mesma língua – só que não era húngaro. Mesclou ritmos, melodias e harmonias da memória cultural brasileira com estilos e formas antigas.

Enquanto isso, isolado nos EUA da passagem do século, Charles Ives desconhecia toda aquela ebulição musical européia das primeiras décadas. Ainda assim, já experimentava em suas músicas coisas que Debussy, Stravinsky, Schoenberg e tantos outros só viriam a fazer 10, 20 anos depois. Música serial, colagens, microtonalismo, clusters (”cachos” de notas)… Ives, extraordinário pioneiro, não dava muita bola para o academicismo. Inventava sua própria música, livre das numerosas e velhas regras européias.

Outro norte-americano, John Cage, não deixou pra ninguém. Dizia que a briga entre a dissonância/consonância era coisa do passado e que o lance agora era entre o ruído e os chamados “sons musicais” (normal pra hoje, mas em 1937… !). Para esse músico/pensador/poeta, a música européia podia ser melhorada com um pouco de silêncio que ele chamou de 13° som. Com sua oposição a quaisquer limites em música, propõe o imprevisível como lema.

DICAS – livros / discos / concertos

LIVROS

Música Eletroacústica – História e Estéticas, org. Flo Menezes, Edusp. Um livro único e essencial na bibliografia brasileira. Traça o percurso (e percalços) da música eletroacústica desde seu surgimento através da seleção de textos fundamentais dos mais importantes compositores da história do séc. XX;

Schoenberg, René Leibowitz, ed. Perspectiva;

Anton Webern, Claude Rostand, ed. Alianza Musica.

- “Debussy”- La Mer, Nocturnes, Jeux, etc; reg. Boulez – Cleveland Orchestra;

- “Música Maximalista” – vol 1 – Flo Menezes;

- “Satie” – Piano Works vol. 3; pianista Klára Kõrmendi

- “Stravinsky” – Petrushka, Symphony in 3 mov; reg. Simon Rattle – Birmingham Orchestra

Iluminações

CD’s e LIVROS telefax: (019) 233-7944 Rua José Paulino, 1.474 Centro – CAMPINAS

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Boletim Música Nova

Número 2

Maio / 97

Pensando…

Não deixe para o terceiro milênio o que você pode ouvir hoje.

Chegamos, atravessamos e estamos acabando o Século XX quase sem esbarrar nele, ou melhor, na música composta neste período. 0 professor de música acha-se hoje completamente desfamiliarizado da linguagem musical de sua época, e assim não consegue perceber o sistema de referenciais (tanto intelectual quanto sensorial) para a compreensão destas obras. A música, de todas as artes, é a mais revivida e glorificada por seu passado. Desconhece-se a produção musical de hoje e algumas pessoas chegam até a duvidar que ela exista. Não existe falta de novas estéticas ou crise de criatividade na música atual, mas falta de divulgação desta música pela mídia, editoras, gravadoras e escolas de música, incluindo as universidades; não sendo divulgada ela não é comercial e não sendo comercial, não é publicada, gravada, tocada, estudada e portanto não é ouvida.

(Texto de Glória Cunha extraído de sua conferência no IV Congresso Internacional de Educação-Educador ‘97)

“Música Nova” é uma publicação mensal da Equipe Organizadora do Festival Música Nova – Campinas/97.

Tiragem: 500 exemplares – Maio de 1997 – n.° 2 Contatos pelos telefones: (019) 253-3435 (com Bruno), (019) 239-1966 r/29 (CDMC) ou pelo e-mail: _ glocunha@turing.unicamp.br.

Iluminações

CD’s e LIVROS telefax: (019) 233-7944 Rua José Paulino, 1.474 Centro – CAMPINAS

SÉCULO XX

SEGUNDA (e última) PARTE

Messiaen foi um compositor e organista francês que criou um estilo musical próprio muito influenciado pela sua extrema religiosidade católica. Sua música combina simultaneamente um pouco de tonalidade, modalismo, atonalidade e serialismo. Tornou-se conhecido por usar cantos de pássaros em sua música. Criava seus próprios modos melódicos chamados de “modos de transposição limitada” enquanto os ritmos inspirados nos da Índia e Grécia. Esse colorido todo era uma coisa muito séria pois Messiaen possuía a capacidade de ver cores quando ouvia sons. Era capaz de dizer que tal acorde era marrom ou vermelho alaranjado, etc. Schaeffer, também francês, estudou engenharia e trabalhou na Rádio e Televisão Francesa. Em 1948 toma-se o pioneiro (junto a Pierre Henry) da música concreta (música feita a partir de sons gravados e modificados). Em 1950 produziu a primeira obra importante do gênero – Sinfonia para um Homem Só. Já Stockhausen, compositor alemão aluno de Messiaen, foi um dos primeiros (junto a Eimert) a criar música eletrônica (onde se utilizavam sons sintetizados, isto é, gerados “artificialmente”), pois sentia que os instrumentos limitavam o uso do serialismo integral. Aliás, por um bom tempo, os “concretos” e os “eletrônicos” brigaram bastante pela validade de seus caminhos. A principal característica de Stockhausen é ter muitas características. O espaço é uma delas (em uma de suas peças – Carré – são utilizadas 4 orquestras dispostas ao redor do público) e o misticismo, outra (o místico e o mítico são base para suas sete grandes óperas – 5 já prontas – cada uma dedicada a um dia da semana). Pierre Boulez, francês, compositor, regente, pianista, matemático, engenheiro e também aluno de Messiaen (ufa!!), foi um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento do serialismo integral levando às últimas conseqüências a serialização de alturas, durações, intensidades, timbres, etc. Berio, italiano, compartilhou desses princípios a partir da década de 50, mas se diferenciou dos outros pelo intenso estudo e utilização da voz falada e cantada. Sua música também valoriza “italianamente” a teatralidade operística. Mas ninguém mais teatral do que Kagel. Argentino radicado na Alemanha, compôs música instrumental, eletrônica, teatro musical, óperas e filmes. A execução de suas obras pode requerer até técnicas insólitas e uso de instrumentos incomuns, sempre visando efeitos não só musicais, mas visuais e dramáticos. Não tão dramática é a música de Steve Reich, o fundador do m m mi mi min mini minima minimal minimalism minimalismo. Em sua música, pequenas estruturas musicais se repetem com mínimas mudanças no decorrer do tempo proporcionando uma escuta estática e por vezes hipnótica. Enquanto isso, Ligeti, nascido na Hungria em 1923, seguiu os passos de Bartók. Anotou e estudou os cantos populares de seu país e da Romênia, o que veio a influenciar suas primeiras composições. Saindo da Hungria em 1956, passou a desenvolver contatos com outros tipos de como a serial, as primeiras experiências de obras de John Cage. Com a utilização de verdadeiras “massas sonoras” (texturas muito complexas), a música de Ligeti proporciona uma nova percepção. Um exemplo mais conhecido é Lux Aeterna, para coro, ouvido no filme 2001: Uma Odisséia no Espaço. À sua maneira, Penderecki, polonês, também trabalha com massas sonoras, divisões menores que meio-tom e clusters quase sempre dentro de um caráter dramático, trágico. Ouve-se no final de Trenodia para as Vítimas de Hiroshima, a “explosão da bomba atômica” em um fortíssimo tutti orquestral. Ainda na Polônia, temos Lutoslawski. Na juventude escreveu música no estilo neoclássico, foi pianista de cafés e trabalhou com arranjos. Sua admiração por Bartók levou-o a dedicar à memória desse compositor a peça Música Fúnebre. Depois de conhecer John Cage, utilizou o “acaso controlado” em Jogos Venezianos. Ao contrário de Lutoslawski, falecido recentemente, Yannis Xenakis vive! Compositor e arquiteto romeno de origem grega naturalizado francês, se utilizou da lei das probabilidades, funções e equações matemáticas para compor. Esse cara levou a sério que música pode vir da matemática (e da arquitetura também) provando que dá pra fazer muito som com os números. Sua música é chamada de “Estocástica”. Giacinto Scelsi, ao contrário de Xenakis, mas semelhante a Lutoslawski, faleceu recentemente. Italiano, era radicalmente diferente de todos os outros compositores da sua época – enquanto a onda era complexidade, mil notas com grandes saltos, ele fazia o contemporâneo de uma nota só. Influenciado pela filosofia oriental, sua obra, muitas vezes, parece ter um caráter meditativo, mas sem deixar de ser dramática. Criava grandes obras derivadas a partir de uma única nota, utilizando suas ressonâncias e harmônicos para elaborar harmonias microtonais (com intervalos menores que meio-tom!) sempre pensando mais em timbre que altura do som.

Bem, é mais ou menos isso o que tínhamos a dizer (por ora…). Lembramos que isso tudo foi só um rápido panorama da(s) música(s) do século XX. Ainda há muito a dizer (e a ouvir!!).

DICAS – livros / discos / concertos

LIVROS

A Música Moderna – Paul Griffiths. Jorge Zahar Ed., 1987;

A Música Hoje 2 – Pierre Boulez. Ed. Perspectiva, Serie Debates, 1992;

DISCOS

Aperghis, Mache, Xenakis, Gaussin – obras p/ quarteto de cordas e percussão, Arditti String Quartett e Trio Le Cercle. Auvidis, Montaigne, WDR, 1991; Barraqué, Jean – “Concerto” (p/ clarineta) e “Le Temps Restitué” – Ensemble 2e2m – Paul Mefano. M FA, HM, 1995;

Messiaen, Olivier – Vingt Regards sur l’Enfant Jésus -piano – Hâkon Austbo. Naxos, 1993.

Apoio: xerox do IA, Unicamp.

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Boletim Música Nova

Número 04

Agosto / 97

Acontecendo 2…

Continua o Festival Música Nova / Campinas/97!!!

Você assistiu aos dois primeiros concertos do Festival Música Nova – Campinas/97? Não?? Que pena. Mas não se desespere! O Festival, como todos sabem, continua até o final do mês (dia 28). São mais quatro concertos – todos com entrada franca – aos quais você não pode deixar de ir. Mesmo porque a quantidade de elogios que recebemos nos provou duas coisas: a) que muitas pessoas foram assistir e b) que música contemporânea é legal! Assim, estamos vendo que aquele “mito” de que ‘música nova é chata, é cerebral, é inacessível, é fria, é isso, é aquilo, blábláblá, blábláblá…’ está realmente caindo.

Participe dessa queda você também assistindo, por exemplo, ao concerto de música eletroacústica do dia 14 às 12h30 no Auditório do Instituto de Artes – Unicamp. Em outro dos concertos (dia 18) teremos Tierkreis (que quer dizer “zodíaco”), música de Stockhausen que pode ser tocada com quaisquer instrumentos (como a Arte da Fuga, de Bach!). Tierkreis são doze peças escritas uma para cada signo do zodíaco. Ouviremos nesse dia seis delas com um duo de clarineta baixo e percussão. No penúltimo concerto (dia 21) haverá desde microtonalismo com quartos e oitavos de tom para soprano e clarineta (já imaginou cantar isso?) até colagem e sobreposição de textos declamados e cantados. Finalmente, na última apresentação do Festival (dia 28), com o pianista Paulo Álvares, vamos ouvir, além dos “clássicos” como Cage, Berio e Kagel, a russa Galina Ustvolskaya (veja texto de Augusto de Campos a seguir).

“Música Nova” é uma publicação da Equipe Organizadora do Festival Música Nova – Campinas/97.

Tiragem: 500 exemplares – Agosto de 1997 – n.° 4 Contatos pelos telefones: (019) 253-3435 (com Bruno), (019) 239-1966 r/29 (CDMC) ou pelo e-mail: glocunha@turing.unicamp.br
Home Page do Festival Música Nova: http://www.geocities.com/SiliconValley/Way/9619/festival33.html

[imagem: Análise de um som que é a mistura de um piano com um tambor na tela de um computador Macintosh]

Festival Musica Nova – 35 anos

Edgard Varèse, perguntado certa vez sobre o “divórcio da música moderna e do público”, respondeu: “como falar em divórcio se não houve casamento?”. A música erudita do nosso século é uma das mais esplêndidas e ricas aventuras do espírito humano. E se a maior parte das pessoas não sabe disso, é porque não lhe dão oportunidade para ouvi-la. E porque não se tem dado o devido destaque às poucas iniciativas de sua apresentação. O Festival Música Nova, criado por Gilberto Mendes há 35 anos, constitui uma dessas raras oportunidades de travar contato com a grande música do nosso tempo. Além de reunir notáveis intérpretes daqui e do exterior, traz sempre novidades criativas absolutamente imperdíveis. Este ano anuncia, entre muitas performances de relevo, obras de Krenek, Hindemith, Varèse, Cage, Ligeti, Berio, Kagel, Lutoslawski, Denissov e outros, além de criações de compositores nacionais de várias gerações, como Villa-Lobos, Gilberto Mendes e Paulo Chagas. E a primeira execução no Brasil, pelo pianista Paulo Álvares, dos 12 Prelúdios (1953) e da Sonata n.° 5 (1986) da compositora russa Galina Ustvolskaya, a mais extraordinária revelação recentemente surgida no campo da música contemporânea. Ustvolskaya, hoje com 78 anos, produziu, a partir de 1946, uma obra extremamente radical, ao mesmo tempo livre e rigorosa, afrontando todas as convenções e dogmas stalinistas. O que explica sua marginalização durante o regime autoritário da União Soviética. Redescoberta e divulgada em disco somente nesta década, foi denominada pela crítica “a dama do martelo” e, por mim, ‘a esfinge musical da Rússia”, tal o impacto e a originalidade de sua obra. Esta e muitas outras atrações do Festival fazem deste evento, a ocorrer em agosto, em São Paulo e Santos, um acontecimento cultural indispensável para quem queira atualizar-se musicalmente e não chegar ao fim do século sem se dar conta das suas realizações maiores.

Augusto de Campos – julho de 1997 (texto extraído do programa do 33o Festival Música Nova de São Paulo e Santos)

33° Festival de (sic) Música Nova de 1997
Gilberto Mendes 75 anos

(…) Novas técnicas de criação, de execução e posições estéticas distintas convivem lado a lado, caracterizando nosso século um dos mais ricos de toda a história da música de concerto.

O intercâmbio internacional, necessário para a organização deste evento, o transformou numa escola do pensamento musical contemporâneo no Brasil. Importamos e exportamos informações que com certeza deixarão fortes impressões tanto no público quanto nos artistas participantes.

O Festival Música Nova é a concretização de um sonho do compositor Gilberto Mendes, que alguns consideram como o pacificador das vanguardas musicais, posição difícil para um homem neste cruzamento de centenas de vias diferentes do pensamento musical contemporâneo. Graças ao apoio do Instituto Cultural Itaú, esperamos estar iniciando uma nova fase do evento, tentando uma maior aproximação com o público, que não conhece a nova música de concerto. (…)

Eduardo Guimarães Álvares

(texto extraído do programa do 33o Festival Música Nova de São Paulo e Santos)

Não perca mais nada!!

Confira abaixo a programação restante do Festival Música Nova em Campinas.

CONCERTOS

14/8, 12h30, Auditório do IA/Unicamp – concerto de Música Eletroacústica

18/8, 12h30, Auditório do IA/Unicamp – concerto do duo clarineta baixo (Luis Eugênio ‘Montanha’) e percussão (Eduardo Leandro)

21/8, 21h, CCLA – concerto com professores e alunos do Depto. de Música/Unicamp

28/8, 17h, Auditório Sala 34 do Depto. de Música/Unicamp – concerto com o pianista Paulo Álvares (Brasil-Alemanha)

MASTER CLASSES

12/8, 12h30, Auditório Sala 34 do Depto. de Música/Unicamp – flautista Leandro Porfírio Gomes: “A flauta no século XX”

14/8, 14h, Auditório Sala 34 do Depto. de Música/Unicamp – compositor Rodolfo Caesar “A experiência do espaço na música eletroacústica”

18/8, 14h, Auditório Sala 34 do Depto. de Música/Unicamp – duo clarineta baixo (Luis Eugênio ‘Montanha’) e percussão (Eduardo Leandro)

28/8, 12H30, Auditório Sala 34 do Depto. de Música/Unicamp – pianista Paulo Álvares

Auditório do Instituto de Artes da Unicamp e Auditório Sala 34 rua Elis Regina, s/ n.°, cidade universitária Zeferino Vaz, tel.: (019) 239-8563 Centro de Ciências Letras e Artes – rua Bernardino de Campos, n.° 989, tel.: (019) 231-2567

Iluminações

CD’s e LIVROS telefax: (019) 233-7944 Rua José Paulino, 1.474 Centro – CAMPINAS

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Boletim Música Nova

Campinas, Abril de 1998

ano II

número 5

Nova – Neue – Nouvelle – New – Nueva – Nuove

[Imagem: Schoenberg jogando ping-pong]

“Música Nova” é uma publicação ocasional da Equipe Organizadora do Festival Música Nova – Campinas/98.

tiragem: 500 exemplares – abril de 1998 – n”. 5 Telefones: (019) 253-3435 (com Bruno), (019) 289-2748 (com Glória ou Ignacio)

E-mails:
glocunha@turing.unicamp.br
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www.geocities.com/SiliconValley/Way/9619/musicanova.html

Por acaso você lembra o que é o Festival Música Nova? Bem… os boletins “Música Nova” estão de volta justamente para resolver esse problema de memória. Esse é um evento internacional que foi idealizado e organizado pelo compositor Gilberto Mendes e pela Sociedade Ars Viva de Santos e que desde o seu inicio, em 1962, tem realizado mostras das mais diversas tendências da música do século XX. A realização do Festival em Campinas no ano passado foi um sucesso, devido à qualidade dos eventos (8 concertos e 6 master classes) e ao grande comparecimento do público. Este ano realizar-se-á a XXXIV (34a.) edição do Festival Música Nova a partir da segunda semana de agosto em diversos locais de Campinas. Maiores informações nos próximos boletins.

NÃO PERCA

dia 21 de maio (quinta-feira) – master class com o percussionista inglês Julian Warburton das 9 às 12h na sala Paes Nunes do depto. de Música/IA/Unicamp e concerto às 20h30 na Cultura Inglesa – Campinas .

DODECAFONISMO, HEIN?

Afinal, que diabo é isso?!?

E uma técnica de composição (assim como o tonalismo – aquele lance de acorde maior, menor; dominante-tônica, blá, blá, blá…) baseada em uma diferente organização da escala cromática. Essa técnica teve uma importância fundamental para o desenvolvimento da música deste século (o XX).

Ele (o dodecafonismo, não o século) surgiu lá pela década de 20 devido à necessidade de organização em um sistema da nova música que os compositores da chamada “2a Escola Vienense” (Schoenberg, Webern e Berg) vinham desenvolvendo. Uma música que se caracterizava pelo abandono das relações tonais (aquele lance de acorde maior, menor,… blá, blá, blá) através da radicalização do uso do cromatismo em busca de uma nova
expressividade.

Dodecafonismo com laranjas (não tentem fazer em casa sem a presença dos pais)

[Imagem: "esta é uma série do Anton Webern"]
[Imagem de fundo da página: "(e o cara da foto é o Schoenberg)"]

Existem mil maneiras de se fazer música dodecafônica. Uma delas:

* primeiro você cria um gesto musical qualquer; uma certa sonoridade (um motivo, intervalos entre as notas, acordes característicos, etc.) que soe interessante para você;

* depois você pega as notas da escala cromática (todas as 12). Pegou? Muito bem. A partir disso você constrói a sua série dodecafônica!! E o que é uma série dodecafônica? É uma seqüência de notas (sem repetir nenhuma delas) que você cria respeitando as características básicas daquela sua idéia musical;

* Quer dizer então que a série é uma melodia?? Nããããão!! Na verdade, ela funciona como uma estrutura básica para a composição. Mais ou menos como a escala (diatónica) em relação à tonalidade;

* Muitas vezes o material da série original não é suficiente para dizer tudo que você gostaria. Você pode resolver esse seu problema transpondo a mesma série para as 11 alturas restantes. Outra forma de expandir o material é utilizando essas transposições de trás para a frente (retrógrado – ou “caranguejo”), invertendo as séries (o que subia passa a descer e vice-versa) ou retrogradando as inversões (o caranguejo do que sobe – desce ou vice-versa). Ufa! Só aí já temos 48 possibilidades!!

* De posse desse material você já pode começar a escrever sua música. Experimente montar acordes com as notas das séries, criar melodias e utilizar todas as possibilidades seriais. Mas cuidado! O resultado dependerá exclusivamente da sua criatividade e bom gosto. Caso não fique bom, não culpe o dodecafonismo, tadinho. Ele é apenas uma ferramenta.

ENQUANTO ISSO, NO BRASIL…

Aqui no Brasil o dodecafonismo foi introduzido pelo compositor, flautista, regente, professor e alemão Hans-Joachim Koellreutter, que veio para a América do Sul, em 1937, para uma tournée e acabaram ficando por aqui mesmo (o Hans e o dodecafonismo).
Logo que chegaram, trouxeram consigo o espírito de renovação que vigorava na Alemanha antes do nazismo. E com essa energia toda, Koellreutter e outros entusiastas formaram o “Grupo Música Viva” em 1939.
O negócio é que eles estavam preocupados em ficar por dentro do que acontecia no resto do mundo (ocidental). Novas tendências em educação musical, novas estéticas, técnicas de composição, etc. Essa tendência universalista do grupo logo iria se chocar com a estética nacionalista que vigorava fortemente por aqui. O nacionalismo buscava, em sua música, uma suposta “identidade nacional”. CIC, RG, essas coisas? Nãããão! Estudavam melodias, canções e ritmos eleitos como “tipicamente brasileiros”, extraíam daí seus principais clichês e, com isso, compunham sinfonias, rapsódias e fugas, quase tudo tonal (aquele lance de acorde maior, menor… ah, você já sabe!), no melhor estilo europeu do século XIX!?!!
Esta estética foi ardorosamente defendida por figurões (”os notáveis”) da música brasileira, como Villa-Lobos e Guarnieri. O dodecafonismo não se bicou com estas propostas por trazer idéias e sonoridades musicais distintas e por ser uma técnica desenvolvida fora do Brasil – já que para os nacionalistas só tinha valor o que era criado aqui (sic).
Assim, na década de 50, vamos assistir a verdadeiros duelos pelos jornais entre os compositores nacionalistas e aqueles que aderiram a essa nova prática. O Grupo Música Viva foi o precursor de uma série (dodecafônica?) de outras rupturas na música do Brasil, trazendo as inovações que estavam rodando pelo mundo. Nessa história toda estão, em parte, as sementes do Festival Música Nova!

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Se você tem interesse em patrocinar esta publicação, ligue rápido! 253 3435 (d Bruno) ou 289 2748 (c/ Ignacio)

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Boletim Música Nova

Campinas, julho de 1998

Ano II
Número 6

Você convida um amigo para ir a um concerto do Festival Música Nova que você viu anunciado no Boletim. Um concerto de piano e violoncelo. – Violoncelo? Legal, sempre gostei disso!. Aí vocês vão até lá e o que ouvem não é beeem o que vocês esperavam… Pra começar, o pianista nem sentou: ficou lá em pé debruçado dentro do piano! Já o violoncelista nem pegou o arco, saiu batendo no instrumento e tirando uns sons esquisitos. Depois de uns minutos, eles pararam e levantaram para agradecer: as pessoas estavam aplaudindo! E alguns pareciam ter realmente gostado. Seu amigo então vira pra você e pergunta:

ISSO É MÚSICA?

[Imagem: partitura de l'Epode, de Olivier Messiaen (1960) – excerto
]

“Música Nova” é uma publicação ocasional do Núcleo Música Nova Campinas/98.

Tiragem: 500 exemplares Diagramação: Marco T. Ruviaro

Agosto de 1998 – n°. 6

Contatos:

(019) 256-3435 (Bruno) (019) 289-2748 (Glória/Ignacio)

E-mails:

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brunotr@obelix.unicamp.br
www.geocities.com/SiliconValley/Way/9619/musicanova.html

Mais uma vez, o Boletim Música Nova está aqui para resolver (?) esse seu problema… Muita gente tem uma visão bem antiga sobre uma porção de coisas: infelizmente, é comum a gente só apre(e)nder e só ouvir música do passado. Século dezenove pra trás. Isso acaba gerando um monte de conceitos e preconceitos ultrapassados, enraizados (ops!) numa tradição “romântica”…

…e há tanta coisa que o século XX trouxe! Novos sons, novas músicas, novas idéias, conceitos…!! Pois é, faltam apenas dois anos para acabar o século (e até o milênio) e você não conhece bem a música dele (do nosso século), conhece??

Você vai poder ler nesta página uns excertos (excerto = trechinho) de textos de um pessoal que sabe do que está falando.

Mas não vá esperando que a gente:
defina,
fixe,

estabeleça,
demarque,

determine a extensão ou os limites de,

enuncie os atributos essenciais e específicos de,

indique o verdadeiro sentido de,

dê a conhecer de maneira exata,

ajuíze o sentido ou o objetivo de,

revele,

torne conhecido

manifeste com exatidão

o quê é, afinal, a tal da Música.

BERIO
Sinto-me tentado a responder que a música é a arte dos sons, mas correria o risco de me perguntarem o que é arte e então seria pior. (…) Além de difícil, a sua pergunta é também indiscreta, porque me convida a traçar em poucas palavras o sentido do meu trabalho musical, vale dizer, da minha vida. (…) Tentar definir a música – que em todo caso não é um objeto mas um processo – é quase como tentar definir a poesia, ou seja: trata-se de uma operação felizmente impossível, considerando a futilidade de querer estabelecer a fronteira entre o que é música e o que não é, entre poesia e não-poesia. (…) Nos séculos anteriores, por exemplo, a “fronteira” tonal delimitava territórios precisos e profundos. Hoje os territórios são vastíssimos, as fronteiras muito mais móveis e de natureza diversa. (…) paradoxalmente, torna-se fácil responder à sua pergunta: a música é tudo aquilo que se ouve com a intenção de
ouvir música.

(Luciano Berio – Entrevistas Sobre a Música [Rossana Dalmonte] São Paulo, Ed. Civilização Brasileira, 1981)

STRAVINSKY

O prazer que experimentamos ao ouvir o rumorejar da brisa nas árvores, o murmúrio de um riacho, a canção de um pássaro. Tudo isso nos agrada, nos diverte, nos delicia. Podemos até dizer: Que música deliciosa! Naturalmente estou usando apenas uma comparação. (…) Esses sons da natureza nos sugerem uma música, mas ainda não são, em si mesmos, música. (Igor Stravinsky – Poética Musical em 6 lições Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1996)

CAGE
(por Augusto de Campos)

para Cage a música não é só uma técnica
de compor sons (e silêncios)
mas um meio de refletir
e de abrir a cabeça do ouvinte
para o mundo (até para tentar melhorá-lo
correndo o risco de tornar as coisas piores)

com sua recusa a qualquer predeterminação

em música

propõe o imprevisível como lema
um exercício de liberdade que ele gostaria de ver estendido à própria vida
pois “tudo o que fazemos”
(todos os sons, ruídos e não-sons incluídos)

“é música”

(John Cage – De Segunda a Um Ano São Paulo, Editora Hucitec, 1985)

NÃO PERCA!!!

dia 24 de agosto às 21 h no Centro de Convivência concerto com o pianista Paulo Alvares.
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PATROCÍNIO:

NOVOENFOC – Gráfica Digital R. Uruguaiana, 651 – Bosque CEP U026-001 – Campinas/SP Fone/Fax: (019) 236-7877

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Boletim Música Nova

Campinas, março de 1999 número 7

ano III

Número 7

Ei, você!
É, você mesmo, que toca flauta, piano, violino, violão… você por acaso já tocou alguma música do Stockhausen, do Berio, do Cage, do Gilberto Mendes? Um Bartókzinho, pelo menos? Não?

E por que não? Ah, é que não faz parte do programa… sei. O seu programa só vai até o Debussy, não é mesmo?

Em outros tempos, era comum todo mundo tocar as músicas novas de cada época. Os compositores compunham (claro), os instrumentistas tocavam (evidente…) músicas fresquinhas, feitas ali, praquele final de semana. As pessoas esperavam ouvir sempre uma música nova. Nesses tempos (do Bach, depois Mozart, Beethoven…) era o compositor que estava em evidência, muitas vezes tocando suas próprias obras. Não existia ainda essa história de “performance”, “shows”, de ir ouvir música só porque o intérprete era o Rostropovich ou o Horowitz. Foi mais a partir do século XIX que os intérpretes começaram a ganhar importância. O Liszt e o Paganini, por exemplo, ficaram famosíssimos como instrumentistas “show-man”. A novidade agora eram os intérpretes.

Aí vem o século XX.

Nesse momento, mais ou menos na virada do século, cada
vez mais músicas do passado estavam sendo redescobertas e tocadas. Legal! Mas… e os compositores do século XX?? Pararam de ser ouvidos, tocados? Já no começo deste século (o XX), Anton Webern quase não conseguia fazer com que tocassem suas peças…
será que esqueceram de apresentar os novos compositores aos novos intérpretes? Será que… bem, isto é assunto para um próximo boletim.

Vamos voltar ao fio da meada. No século XX, ainda mais com essa história de gravação de discos, foi uma festa. Era um tal de interpretação de Beethoven por Stokowski (regente), Bach por Leonhardt (cravista) ou por Glenn Gould (pianista)…

O fato é que a maioria dos intérpretes desse século tem se dedicado somente à música do passado. A(s) nova(s) música(s), trazendo novas idéias, trouxe(ram) também novas formas de escrita, novas formas de tocar (e de se tocar), novas sonoridades e… novas dificuldades. Ou seja, precisa-se de uma nova postura que não esteja alicerçada (baseada) em conceitos tradicionais. É preciso abrir os ouvidos antes de mais nada. Que tal perguntar ao seu professor alguma coisa sobre música contemporânea? Será que ele vai dizer que isso não é música, que é feio? Talvez ele também não tenha tido bons professores…

COISAS EM QUE NINGUÉM ACREDITA!!!

* Você sabia que pode existir intérprete de música eletroacústica?? (aquela só com alto-falantes)

* Você já experimentou criar uma música improvisando? (mas não usando escalas maiores/menores, tríades, essas coisas)

* Você já chegou a tocar com tape? (como se fosse um dueto com sons eletrônicos)

* Você sabia que existem partituras sem nenhuma nota escrita??

Por essas e outras, você não pode perder o concerto do violonista (violonista > violão) Frederico Grassano no dia 23 de março de 1999, às 21h, no Centro de Convivência Cultural. Agora, com vocês, uma entrevista exclusiva com a nossa estrela do mês (o Fred) que vai contar pra gente um pouquinho sobre… humm, bem… Ah, leiam aí na página 2.

“Música Nova” é uma publicação ocasional do Núcleo Música Nova Campinas

Tiragem: 500 exemplares Diagramação: Marco T. Ruviaro

Março/1999 – Número 7

Contatos:

(011) 9931.5994 (Bruno)
(019) 289.2748 (Glória/Ignacio)

Internet:

glocunha@turing.unicamp.br
brunotr@obelix.unicamp.br
www.geocilics.com/SiliconValley/Way/9619/musicanova.html

ENTREVISTA
[bula: bmn quer dizer Boletim Música Nova, e fg quer dizer Frederico Grassano!!]

bmn – Quando e onde você começou a estudar música?

fg – Eu comecei a estudar música aos…, na verdade, eu comecei sozinho em casa. Mais tarde (uns dois anos depois), com dezesseis anos, comecei a estudar violão um pouco melhor.

bmn – De onde veio o interesse por música contemporânea?

fg – Por que sempre fazer ‘acordinhos’ no violão? Eu tinha outros colegas que tocavam comigo também e a gente procurava tocar tudo que não era convencional. A partir disso, estudando violão um pouco mais a fundo, um pouco mais de música, comecei a ver que essas sonoridades que eu procurava já existiam e ai começou a minha paixão por esse tipo de ‘linguagem’ musical.

bmn – Que incentivos você teve para se dedicar à musica contemporânea?

fg – Nenhum! Você tem que ser meio um desbravador no Brasil, ninguém te dá dica nenhuma. Bem, pelo menos na minha época era assim, há uns 10 anos atrás. Hoje em dia já deve ter mudado alguma coisa (nos conservatórios, nas escolas de música, nas universidades).

bmn – O que muda na interpretação de música nova?

fg – A sonoridade já é outra, então já muda alguma coisa. Você tem que estar atento aos códigos que a obra oferece. Cada uma é uma história. É bom falar que não é do dia pra noite que você vai tocar uma peça do século XX; por isso, o estudo técnico básico do violão tem que ser muito bem feito.

bmn – Por que locar música nova?

fg – Porque eu sou um louco! (risos) Aqui no país não tem muito apoio. A música que foi feita nesse século tem que ser levada pras pessoas de alguma maneira. O violão foi um instrumento bastante explorado nesse século. Existem as maiores obras pra volão compostas pelos maiores compositores no século. Por que não tocar?

bmn – Onde você arranja material sobre música contemporânea (CDs, partituras, etc.)?

fg – O material todo é importado. Os discos são caros, os livros são pouco publicados na nossa língua e partitura é uma piada. Em livrarias e lojas de CDs um pouco maiores você ainda encontra material interessante. Fora isso você tem que ficar garimpando. Isso é uma coisa que dificulta as pessoas a tocar música do século XX. Se o acesso é difícil pro músico, imagine pro público em geral…

bmn – Fale um pouco sobre o repertório desse seu concerto.

fg – Nesse concero eu tentei reunir algumas obras que já se
tornaram clássicas desse século. O repertório todo é de obras originais pra violão. Diversifiquei um pouco as linguagens musicais buscando algumas sonoridades mais densas, mais etéreas, sei lá. Por aí. O repertório abarca desde o mexicano Carlos Chaves (1921) passando por Leo Brouwer na fase vanguardista (década de 70) deste compositor/violonista, até a Sequenza XI pra violão – do Luciano Berio – de 1988.

bmn – Depois desse seu concerto, seu violão vai precisar de conserto?

fg – Com certeza: ele já está rachado, com uma fissura no tampo de trás devido a uma queda de um ônibus na nossa querida capital São Paulo.

bmn – Quais seus principais planos pra 99 (penúltimo ano do milênio!!)??

fg – Os principais planos são: o concurso de intérpretes da Gaudeamus Foundation e a Bienal da Gaudeamus com o grupo In Sanum, em outubro, na Holanda.

bmn – O que você toca (ou tocou) além de música contemporânea?

fg – Tudo, né? Desde marchinhas de carnaval até punk-rock. Falando sério, dentro do estudo violonístico você tem que tocar desde musica antiga até os dias atuais; é importante ter uma noção geral da evolução sonora e técnica deste instrumento. Sendo assim recomendo que se faça todo o repertório tradicional.

bmn – De quais compositores você mais gosta?

fg – Bach, Beethoven, Mozart… esses aqui não precisa nem falar. Schoenberg (a escola de Viena), Straviniski… Putz, tem uma tonelada! Cage, Ligeti, Boulez, Giacinto Scelsi, Xenakis. Tristan Murail eu acho legal pra c. E Berio, entre milhões mais.

bmn – O que você acha do ensino de música no Brasil?
fg – Eu ainda acho o ensino um pouco defasado e tradicionalista demais, principalmente nos conservatórios e escolas livres de música (particular). Além do mais as verbas destinadas a educação em geral estão sendo seriamente reduzidas (Universidades Piiblicas de Música). Também não temos material e locais adequados para realizarmos os estudos.

bmn – Você participa ou já participou de algum grupo musical?

fg – Fiz muita música de câmara e ainda faço. Isso é muito importante pra formação musical do músico, além de ser legal. Tem um grupo onde eu toco pelo qual eu tenho um apreço muito especial, que é o In Sanum Ensemble. É o grupo onde realizamos todos nossos desejos, nossas fantasias musicais em música contemporânea. That’s all folks!

NÃO PERCA!!!

Frederico Grassano, violão

23 de março de 1999
21h – Centro de Convivência Cultural (Fone: 252.5857)

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